Tales Agra
Psicanalista em Brasília

O caso Dora e a transferência


O caso Dora, nome fictício de Ida Bauer, foi um dos mais discutidos da literatura psicanalítica. Foi redigido por volta de 1901, porém apenas publicado em 1905. Sua narrativa é apaixonante, e a trama da vida de Dora tem tom de novela. O tratamento durou 11 semanas, interrompido pela paciente.

 

O pai de Dora havia feito tratamento com Freud anos antes, para curar a sífilis. Como gostou e se afeiçoou a ele, trouxe a filha para se tratar, depois que descobriu uma carta de despedida por ela escrita, onde tencionava o suicídio. Dora sofria de muitos sintomas histéricos, além de sua depressão: afonia, tosse nervosa, enxaquecas e apendicite (que apenas posteriormente a algum tempo de análise viria ser interpretada como sintoma histérico).

 

Dora era uma mocinha, virgem, de 18 anos, oriunda de uma família burguesa austríaca. Seu pai era um grande industrial muito bem sucedido, porém era acometido de severas condições físicas de tempos em tempos. Mesmo assim, Freud o descreve como ativo e talentoso, “de personalidade dominante, tanto por sua inteligência e suas qualidades de caráter quanto pelas circunstâncias de sua vida”. Era admirado pela filha. Sua mãe era uma mulher simplória, sem muito conhecimento intelectual, e que se dedicava principalmente à limpeza da casa. Era alheia ao contato com os filhos. Dora desprezava a mãe.

 

Em virtude de uma tuberculose de seu pai, em 1888, a família retirou-se para uma cidade menos movimentada que Viena, onde conheceram um casal do qual ficaram íntimos, o casal K. Ele (sr. K.) era um negociante menos abastado que seu pai e ela (sra. K.) sofria de distúrbios histéricos e já havia passado por alguns sanatórios. Logo logo, a Sra. K. E o pai de Dora tornam-se amantes.

 

O sr. K acabou por ceder ao romance de sua esposa com ele, mas também investiu em outras relações: primeiro cortejou a governanta de sua casa, conseguindo o que queria, mas depois de um tempo a ignorou violentamente dentro de casa. Depois passou a cortejar Dora, sempre lhe dando presentes e procurando agrada-la, de modo que havia um acordo tácito entre os dois homens: o pai de Dora podia viver o romance com a sra. K, desde que o sr. K pudesse, da mesma forma, viver um romance com Dora. Ela havia sido conivente e mostrado satisfação com esse acordo durante algum tempo.

 

Consciente da mentira familiar que vivia desde muito tempo, ela rejeitou a proposta que o sr. K lhe fez à beira do lago. Ele lhe disse “minha mulher não é nada para mim”, ao que ela lhe deu uma bofetada. Contou a mãe sobre esta investida e esta contou ao pai, que pediu ao sr. K uma satisfação. Este negou o fato veementemente. A partir daí, a família acusou Dora de estar inventando esta situação, o que motivou seu pai a encaminha-la a Freud. Por trás deste encaminhamento, ele esperava que Freud lhe desse razão e que pusesse fim às fantasias sexuais da moça. Daí começaram seus sintomas depressivos e também um ódio pela sra. K., como manifestação de um ciúme do pai.

 

Anteriormente, Dora fora bastante próxima da sra. K, que lhe fazia confidências e inclusive lhe proporcionou iniciação sexual, ao falar em termos sexuais que naquela época eram desconhecidos para jovens da sua idade. Também lhe indicou livros médicos aonde podia se ter acesso aos mais diferentes costumes sexuais, velados pela cultura. Dora se referiu a ela, certa vez, como fascinada “pela deslumbrante brancura de seu corpo”. Somado a isso – é importante ressaltar – Dora também teve contato bem próximo com a governanta de sua casa, que também era iniciada em assuntos sexuais e partilhava-os com ela. Assim como com a sra. K, rompeu relações posteriormente. Certa vez, ficou duas horas admirando o quadro da Madona Sistina (dados importantes para posteridade).

 

Por meio da análise detalhada da biografia, do acontecimento cronológico dos fatos, das palavras usadas e dos sonhos, Freud vai construindo sua interpretação da trama da vida de Dora. Ele inclui aí a verdade de seu desejo e a comunica, subvertendo a demanda de seu pai. Depois de escrever a Interpretação dos Sonhos, ele estava interessado em mostrar como a técnica da interpretação era útil para a análise do inconsciente. Seu pensamento, nesta época, ainda está voltado para a eliminação dos sintomas e substituição por pensamentos conscientes e também para rememoração da própria história como objetivo secundário. Portanto, ao conduzir a análise de Dora, ele se concentra em procurar a etiologia dos sintomas na sexualidade recalcada da moça.

 

A propósito do acordo entre os dois homens e do silêncio de Dora, Lacan, em Intervenção sobre a transferência, de 1951, coloca questão da seguinte maneira:

 

“…ele [Freud] se vê diante da pergunta [de Dora]: ‘Esses fatos estão aí, dizem respeito à realidade, e não à mim mesma. O que o senhor tem a mudar nisso aí?. Ao que Freud responde através de uma primeira inversão dialética: ‘Veja’, diz ele a Dora, ‘qual é a sua própria parte na desordem que você se queixa’.” E então pode aparecer a verdade de seu desejo: “que não foi apenas pelo silêncio, mas pela cumplicidade da própria Dora, e mais ainda sob sua proteção vigilante, que pôde perdurar a ficção que permitiu à relação dos dois amantes prosseguir.”.

 

Já aqui começa a indicação, a mostração, por Freud, do desejo recalcado, o que levou a moça a entrar em análise. Depois de várias interpretações peculiares e da captação de detalhes da vida de Dora, ela lhe traz um primeiro sonho e, cerca de duas semanas depois, um segundo. Freud se debruça na análise de ambos.

 

A análise do primeiro sonho clarificou a questão da masturbação e o enamoramento pelo sr. K. Também forneceu a interpretação do porquê a menina pedia a proteção do pai contra a tentação desse amor. A análise do segundo sonho permitiu ir mais longe ainda na geografia sexual de Dora, relacionada ao próprio corpo físico e o conhecimento da vida sexual dos adultos.

 

Durante todo o tratamento, Dora foi resistente e contradizia muito as devoluções ou conclusões que Freud lhe comunicava. Já ao final da análise, quando ela lhe anuncia que não irá continuar, ele escreve: “Foi um indubitável ato de vingança que, no momento em que minhas esperanças de um término feliz do tratamento estavam no auge, ela partisse de maneira tão inesperada e aniquilasse essas esperanças. Também sua tendência a prejudicar a si mesma beneficiou-se desse procedimento. Quem, como eu, invoca os mais maléficos e maldomados demônios que habitam o peito humano, com eles travando combate, deve estar preparado para não sair ileso dessa luta. Será que eu poderia ter conservado a moça em tratamento, se tivesse eu mesmo representado um papel, se exagerasse o valor de sua permanência para mim e lhe mostrasse um interesse caloroso que, mesmo atenuado por minha posição de médico, teria equivalido a um substituto da ternura por que ela ansiava? Não sei. Já que em todos os casos parte dos fatores encontrados sob a forma de resistência permanecem desconhecidos, sempre evitei desempenhar papéis e me contentei com uma arte psicológica mais modesta. A despeito de todo o interesse teórico e de todo o empenho médico de curar, tenho muito presente que a influência psíquica necessariamente tem limites, e respeito como tais também a vontade e a compreensão do paciente.”

 

Ele atribuiu o término precoce da análise devido a não interpretação da transferência como resistência:

 

“Não consegui dominar a tempo a transferência; graças à solicitude com que Dora punha à minha disposição no tratamento uma parte do material patogênico, esqueci a precaução de estar atento aos primeiros sinais da transferência que se preparava com outra parte do mesmo material, ainda ignorada por mim. Desde o início ficou claro que em sua fantasia eu substituía seu pai, o que era fácil de compreender em vista de nossa diferença de idade. Dora chegou até a me comparar com ele conscientemente, buscando, angustiada, assegurar- se de minha completa sinceridade para com ela, já que seu pai “preferia sempre o segredo e os rodeios tortuosos”. Depois, ao surgir o primeiro sonho, no qual ela se alertava a abandonar o tratamento tal como antes deixara a casa do Sr. K., eu mesmo deveria ter-me precavido, dizendo-lhe: “Agora você fez uma transferência do Sr. K. para mim. Acaso terá notado algo que a leve a suspeitar de más intenções semelhantes às do Sr. K. (diretamente ou por meio de alguma sublimação)? Ou será que algo em mim chamou sua atenção, ou que você soube de alguma coisa a meu respeito que me fez cair em suas graças, como lhe ocorreu antes com o Sr. K.?” Então a atenção dela ter-se-ia voltado para algum detalhe de nosso relacionamento, em minha pessoa ou nas minhas condições, por trás do qual se esconderia algo análogo, mas incomparavelmente mais importante, a respeito do Sr. K.; e mediante a resolução dessa transferência a análise teria obtido acesso a um novo material mnêmico, provavelmente ligado a fatos reais. Mas fiquei surdo a essa primeira advertência, pensando haver tempo, de sobra, já que não se apresentavam outros estágios da transferência e ainda não se esgotara o material para análise. Assim, fui surpreendido pela transferência e, por causa desse “x” que me fazia lembrar-lhe o Sr. K., ela se vingou de mim como queria vingar-se dele, e me abandonou como se acreditara enganada e abandonada por ele. Assim, atuou uma parte essencial de suas lembranças e fantasias, em vez de reproduzi-las no tratamento. Naturalmente, não sei dizer qual era esse “x”: desconfio que se relacionasse com dinheiro, ou com ciúmes de uma outra paciente que, uma vez curada, continuara a manter relações com minha família. Quando as transferências se deixam abarcar precocemente na análise, o curso desta é opacificado e retardado, mas sua existência fica mais assegurada contra as resistências repentinas e insuperáveis.”

 

Aí está, em tom de justificativa, a explicação de Freud para o insucesso do tratamento. Porém, admite não levar em consideração um fator importante: em 1923, ele acrescenta uma nota de rodapé concernente ao componente homossexual no caso de Dora:

 

“ (…) Por trás da seqüência hipervalente de pensamentos que se ocupavam com as relações entre o pai de Dora e a Sra. K. ocultava-se, de fato, um impulso de ciúme cujo objeto era essa mulher – ou seja, um impulso que só se poderia fundamentar numa inclinação para o mesmo sexo. (…)”.

 

O fato de não ter levado em consideração esse componente homossexual, em virtude de sua contratransferência, não permitiu a ele, segundo Lacan, a faze-la falar disso, consequentemente colocando em questão o mistério do feminino.

 

Lacan diz:

 

O valor real do objeto que é a sra. K para Dora não é o de um indivíduo, mas o de um mistério: o mistério de sua feminilidade corporal. “… o problema de sua condição está, no fundo, em se aceitar como obejto do homem, é esse o mistério, para Dora, que motiva sua idolatria pela sra. K.”

 

“… Freud reconhece que, durante muito tempo, não pôde deparar com essa tendência homosexual (…) sem cair num desarvoramento que o tornava incapaz de agir quanto a este ponto de maneira satisfatória.”

 

“Em razão de sua contratransferência, Freud volta com excessiva constância ao amor que o sr. K inspiraria em Dora. (…) A sessão em que ele acredita havê-la reduzido a ‘não mais contradizê-lo’, e ao fim da qual julga poder exprimir-lhe sua satisfação, é concluída por Dora num tom bem diferente. ‘Não foi grande coisa o que apareceu’, diz ela, e é no começo da sessão seguinte que se despede de Freud”.

 

Colocada a questão da contratransferência, Lacan vai desenvolver o conceito ao longo de sua obra, e entre outras afirmações, dirá que só existe um sujeito em análise, que o inconsciente não resiste, mas insiste, e que toda resistência é do analista. Foi o que aconteceu neste caso, cuja conduta foi muito criticada, mas serviu para que Freud apontasse que o analista tem sua parte na transferência.

Tales Agra

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