Tales Agra
Psicanalista em Brasília

Identificação ao sintoma


Existe uma ideia popular sobre análise: que ela serve para descobrir a origem do sofrimento, entendê-lo, e então se livrar dele. Como se o sintoma fosse um intruso que, uma vez decifrado, desaparece. É uma ótima ideia, e de fato, funciona.

Mas, mesmo assim, depois de anos e anos de análise, resta ainda uma insistência do sofrimento.

Há algo no sintoma que não some com a interpretação, com a simbolização. Não porque a análise fracassou — mas porque esse algo não é apenas um erro a corrigir. É também uma forma singular de o sujeito se organizar. Um modo próprio de desejar, de sofrer, de dar forma à existência. Um estilo!

Um fim possível para a análise é aprender a conviver com isso — não com resignação, mas com menos sofrimento. Menos guerra com aquilo que insiste.

Só que chegar aí tem um custo.

É preciso fazer um luto. Não de uma pessoa, mas de uma esperança: a de que existe, em algum lugar, uma cura completa. O luto de um ideal. Da ideia de que um dia se vai acordar sem aquele nó, sem aquela tendência, sem aquela forma de ser que às vezes pesa.

Esse luto é difícil, por vezes insuportável, porque exige abandonar a fantasia de se tornar outra pessoa — alguém sem conflito, sem falta, sem aquilo que sempre incomodou. É o abandono da ilusão de completude fálica.

O que a análise pode oferecer não é isso. Apesar de ferramenta poderosa, é algo mais modesto, honesto: uma relação diferente com aquilo que não vai embora. Menos vergonha. Menos luta inútil. Mais responsabilidade sobre o próprio modo de viver. E, porque não, mais a amor a si mesmo, imperfeito e incompleto.

O sintoma deixa de ser o inimigo. Passa a ser, de certa forma, o que há de mais seu.

Tales Agra

Tales Agra

Leave a Comment