Tales Agra
Psicanalista em Brasília

O desejo nas instituições de saúde mental


Sobre o trabalho em instituições, estamos lendo juntos um belíssimo trabalho de Jean Oury, chamado “O Coletivo”, do qual compartilhei um pequeno trecho aqui na semana passada.

Em nosso último encontro, Oury fala um pouco mais sobre a tendência, nas instituições, a homogeneização e a inércia, que se correlacionam com a pulsão de morte, ou seja, com o aspecto destrutivo. Ele lembra que Freud, em “O problema econômico do masoquismo” (1924), teoriza três formas de masoquismo, entre elas o masoquismo moral, que é basicamente representado pelas neuroses de destino: referindo-se as pessoas que  acabam por “fazer o que é desaconselhável, agir contra seus próprios interesses, arruinar  as perspectivas que se abrem para elas no mundo real e, talvez, destruir sua própria existência real.” (Freud, 1924). Oury está citando Freud para poder relacionar este conceito com sua existência e funcionamento nas instituições, usando também a concepção lacaniana:

“Esta culpabilidade objetiva [culpa manifestada e não sentida], Lacan a situa na sua relação com o desejo: há culpabilidade quando o sujeito cede – é a sua expressão – sobre o seu desejo. ‘Ceder sobre seu desejo’ pode parecer uma ambiguidade, isto não quer dizer satisfazer seu desejo, ao contrário: ceder sobre seu desejo não é ir até o fim do seu desejo, mas sim fazer uma manobra de evitamento. Ou seja, ceder sobre seu desejo é um evitamento. Porque ir até o fim de seu desejo põe em questão o sujeito na sua relação com o mundo e, no fim das contas, exige uma coragem extraordinária. Trata-se, de fato, de transpor as ameaças, as barreiras da existência corrente; ou seja, não evitar a castração.” (Oury, 2009, pg. 130)

Seguindo, ele descreve o funcionamento das instituições e põe em questão o bom funcionamento das coisas, a ordem a ser respeitada, o “bom trabalhador”, respeitar o outro, não fazer mal a seu próximo, entre outras coisas advindas do supereu. E desemboca na frase: “Então, ceder sobre seu desejo é justamente o que é facilitado pela organização hospitalar, a organização administrativa, a organização pedagógica nacional” (pg. 131).

Adiante, dá o exemplo do “bom trabalhador, a serviço dos bens”, e mostra como existe nele um “estado de gozo”, ou seja um proveito, um ganho, uma satisfação de um certo masoquismo moral, perpetuador da homogeneização e consequente tendência a destruição, existente neste tipo, sintomático, dentro das instituições.

Não esqueçamos que estamos aqui pensando as instituições de saúde mental, ambientes em que essas questões estão mais intensamente colocadas e, de fato, ocorrendo a todo instante. A relação com o próprio desejo, então, se torna algo primordial a ser posto em questão. Tudo isso vai deixando impressões nos leitores e a formulação pessoal de uma questão, entre muitas outras: como, na prática, fazer parte de uma instituição de saúde mental onde o evitamento da castração possa ser minimizado?

Isso me faz pensar em minha própria experiência trabalhando com pacientes esquizofrênicos. Em uma próxima vez, posso falar um pouco sobre a experiência na prática e como essas questões surgem na experiência clínica.

Beijos.

 

Tales Agra

Tales Agra

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