Tales Agra
Psicanalista em Brasília

Grandeza, desamparo e morte


“A má notícia é que você está caindo no ar, sem paraquedas; a boa notícia é que não há chão”. Esta é uma formulação oriental de Chögyam Trungpa, monge budista tibetano.

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Há existências sustentadas por uma grandiosidade psíquica tão intensa que sua queda expõe, de forma quase obscena, a fragilidade da condição humana.

Certas formações delirantes carregam algo de profundamente trágico. O sujeito que se acredita investido de poder absoluto, dotado de poderes telepáticos, perseguido por forças cósmicas ou identificado à própria divindade, está tentando sobreviver psiquicamente a uma experiência interna de insignificância radical ou ameaça de dissolução. A grandiosidade aparece como solução extrema contra o colapso.

Existe aí uma coexistência paradoxal entre potência e ruína. Internamente, uma importância faraônica. “Se eu respirar muito, alguém morre”, dizia o louco Rei. Externamente, apenas mais um bicho humano, um corpo frágil. O abismo entre a magnitude subjetiva e a precariedade concreta da existência produz algo ao mesmo tempo comovente e brutal.

A normalidade dita saudável frequentemente opera através de mecanismos semelhantes, apenas mais compartilháveis socialmente. Trabalho, estabilidade, reconhecimento, produtividade, projetos, ideologias, relações amorosas, sonhos: tudo isso pode funcionar como tentativa de organizar imaginariamente o desamparo. A diferença talvez seja apenas quantitativa. Alguns sujeitos conseguem sustentar ficções moderadas de sentido. Outros necessitam de cosmologias inteiras centradas em si mesmos para não desabar. A eles, a ciência deu o nome de psicóticos.

A morte possui precisamente a violência de desmontar essa engenharia. Diante dela, o sujeito que se sentia escolhido sucumbe da mesma forma que o sujeito comum. O corpo cai. O delírio cai. O nome perde densidade. Não existe tumba poderosa o suficiente para a evitação do fim. A vida inteira, que internamente parecia absoluta, encontra o mesmo destino silencioso: regressa ao nada, depois de um milissegundo de existência.

Talvez por isso certas mortes produzam tanto mal-estar: elas revelam não apenas o fim de uma vida, mas o fracasso inevitável de todas as tentativas humanas de superar o desamparo estrutural, contrastado pela realidade crua do mundo humano. Somos todos sobreviventes, uns bem mais que os outros.

Um chão simboliza uma estabilidade definitiva, um sentido final, uma garantia contra a perda. Mas dizer que “não há chão” também significa dizer, por outro lado, que não há impacto.

A formulação budista acima toca exatamente esse ponto intolerável. Não existe impacto final capaz de encerrar a angústia porque a própria condição humana já é a da queda. O horror não estaria apenas em cair, mas em perceber que toda tentativa de construir um solo absoluto talvez seja destinada ao fracasso.

Pode-se arguir que isso é muito pesado, que sem um mínimo de esperança de que existe um paraquedas e de que voltaremos a pisar em chão firme, não consigamos existir. Sucumbiremos a uma angústia de desamparo e esfacelamento tão grande, que não suportaremos a existência.

Justo. É preciso um pouco de ficção para que possamos minimamente respirar e não pirar.

O que a queda livre — como metáfora e como experiência — parece ensinar é que o horror não está no vazio. Está em insistir que ele não existe.

Tales Agra

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